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Uso criativo de espaço

Tente fazer isso em casa parte III: Um Tomatillo Cresce no Brooklyn 08. novembro 2011

Os raios solares intensos do verão estão tão quentes que o asfalto que cobre o telhado do sobrado de tijolos de Jacques Gautier no Brooklyn derreteu e agora tem a consistência de uma calçada coberta de chiclete enquanto ele me mostrava o espaço, mangueira em mãos.  Entre as tarefas de jardinagem, ele pausava às vezes para identificar alguns dos delicados brotos que florescem lá em cima, iluminados por uma abundância de raios UV.
 
Local produce. By any means necessary.
© Palo Santo
 
 
“Dá para experimentar?” era a pergunta que eu ficava repetindo.  Na verdade, nem deveria ter que perguntar.  A maioria das espécies cultivadas ali tem como destino final a sala de jantar.
 
Enquanto estávamos conversando, poucos andares abaixo dali, havia uma equipe no restaurante ocupada com a arrumação pós-brunch do domingo e já começando a preparação da cozinha para o jantar.  Aqui no Palo Santo, a cozinha de Gautier com inspiração latino-americana, a maioria dos ingredientes usados virão de fazendas locais, incluindo aquela na qual estávamos no momento.
 
Morning delivery at the bustling Park Slope brownstone.
© Palo Santo
 
 
O próprio Gautier tem um porte imponente, devido à sua altura, mas o seu semblante é aberto e curioso.  Seu rosto ganha um brilho especial quando ele começa a falar dos seus mais recentes projetos.  Trajando calça jeans e uma camisa de linho de manga curta branca, ele sente-se à vontade tanto cavando na terra quanto fazendo mudanças no cardápio da noite com a sua equipe de cozinha – tanto a gastronomia quanto a jardinagem são paixões que ele adquiriu com a sua mãe quando era criança.
 
De certa forma, o atual projeto de Gautier representa o culminar de muitos anos perseguindo essas paixões, que a princípio o levaram a trabalhar como garçom, logo após o término do segundo grau e depois o levaram a estudar gastronomia em Nova Iorque.  Dali em diante ele começou seu trabalho na cozinha e agora já está trabalhando ativamente no ramo há quase quatorze anos.
 
Chef Jacques Gautier in his rooftop habitat.
© Palo Santo
 
 
No entanto, o Palo Santo é o primeiro restaurante que Gautier abriu sozinho, e desde o começo ele achou importante ter métodos sustentáveis no centro das suas operações administrativas.  Com entrada para a discreta e arborizada rua Park Slope, o espaço é uma antiga igreja pentecostal reformada e o salão principal mantém o ambiente de santuário, incluindo o interior de tijolos e madeira iluminados a vela e a fonte em formato de altar abrigada em um pequeno terraço nos fundos, onde só há espaço para uma única mesa.
 
Bunnies brunching or bunnies for brunch?
© Palo Santo
Quando saímos, antes de subir a estreita escada de metal que leva ao jardim no telhado, paramos em um tipo de sub-telhado com um fila de cabaninhas feitas de metal e arame tipo rede de galinheiro.  Gautier abre uma delas e tira três coelhos, colocando-os em um pequeno pasto improvisado, que na verdade é uma banheira antiga cheia de terra com grama plantada por cima.
 
“Os coelhos não entram no cardápio regular”, ele explica, talvez em resposta à minha expressão consternada ao acariciar a cabecinha peluda de um coelho preto.  Mas esses coelhinhos não são bichinhos de estimação.  Pouco tempo atrás, outros coelhinhos como esses foram servidos como parte de um cardápio de degustação de sete pratos, realizado no salão menor do Palo Santo para 20 convidados seletos, entre amigos, clientes leais e membros da imprensa.  O jantar foi resultado de um esforço em equipe entre Gautier e o cervejeiro mestre Garrett Oliver, da famosa cervejaria Brooklyn Brewery.
 
Outros colaboradores locais incluem Annie Novak, da Eagle Street Rooftop Farms de Greenpoint, Brooklyn. Mas, de acordo com Gautier, a maior parte de suas ideias surgem do trabalho em parceria com fazendeiros rurais experientes que fornecem o restaurante com os ingredientes que não podem ser cultivados no telhado.
 
Por exemplo, perto da beira do telhado, em um aglomerado de potes onde nada foi plantado ainda, Gautier me mostra um composto que ainda parece um monte de lixo de cozinha.
 
 
Ao pegar meia casca de ovo, ele começa a me falar sobre o fazendeiro que entrega ovos fresquinhos para o restaurante, que ele já conhece bem e trata como amigo.  Em troca das entregas regulares de ovos com desconto, a cada mês de junho,
Gautier entrega ao fazendeiro Nestor vários paletes de mudas de tomatillo.  Gautier consegue plantar as mudas no começo da primavera no telhado ensolarado e quente, onde a época de plantio dura um pouco mais do que na fazenda rural.  Mais tarde, no outono, Nestor vende a colheita das plantas amadurecidas de volta para o restaurante com um preço justo.  “É tudo um ciclo”, explica Gautier.
 
Tomatillos thrive up on the roof.
© Palo Santo
 
 
Esse tipo de simbiose com fazendeiros locais é apenas uma forma em que Gautier busca reduzir o desperdício, beneficiando a todos envolvidos.  Outra forma é no uso de isopor.  Eu estava tão concentrada, cuidando para não pisar na aglomeração em formato de tetris das vasilhas de isopor, que nem parei para pensar nesse paradoxo.  Aí Gautier me falou sobre elas.  Por um momento, quando eu percebi que o telhado estava lotado de “vasos” de isopor, fiquei perplexa: Será que nos ensinaram algo errado quando éramos crianças?  O isopor não é o pecado capital contra o meio-ambiente, os ossos brancos que restarão depois que tudo mais dos aterros sanitários houver apodrecido?
 
Bem, provavelmente—mas só se você jogá-lo fora.  O isopor ocupa aproximadamente 30% do espaço dos aterros americanos, dizem os estudos, leva quase 500 anos para se decompor e não pode ser reciclado de maneira simples.  A solução elegante encontrada por Gautier de usar as perniciosas embalagens para abrigar plantas simplesmente tira o aterro da equação.  E já que ele recebe peixes nessas embalagens semanalmente, é um recurso praticamente ilimitado para esse propósito.  Tudo faz parte do ciclo.
 
Sunset over the garden.
© Palo Santo
 
 
Com esse objetivo geral de auto-reciclagem sustentável em mente, o espírito que prevalece lá em cima é de agradável experimentação.  Quando eu perguntei ao Gautier sobre quantas variedades diferentes ele estava cultivando no momento,  ele sorriu e disse: “Eu nem sei ao certo!  Existem tantas variedades diferentes que nós nem sabemos o nome certo ou que nem percebemos que plantamos.”  Ele explicou que a variedade é o segredo e que muitas vezes ser detalhista demais com o seu jardim consome muito tempo e pode até ser prejudicial.
 
Employee of the month: Lupe the mouser and airborne scarecrow. Four-legged scavengers and avian opportunists alike don’t stand a chance.
© Palo Santo
A biodiversidade é a palavra do momento. “Existem coisas que outras pessoas consideram como ervas daninhas e acabam gastando muita energia para se livrar delas, quando podemos usá-las em saladas.  E outras coisas são importantes apenas para manter a riqueza do solo.”  Gautier chega bem perto de uma das vasilhas e toca nas pequenas folhas do que parece ser uma erva daninha.  “O trevo é um tipo de erva daninha”, ele confirma.  Mas por definição, uma erva daninha é apenas uma planta que cresce onde ela não é desejada.  Se pudéssemos deixar de lado a arrogância horticultural por um minuto, talvez aprenderíamos a colher vários benefícios de tipos de plantas que normalmente são odiadas e destruídas.  Por exemplo, a espécie que estávamos observando no momento é comestível, disse Gautier, enquanto outros tipos de trevos fixam o nitrogênio, ajudando a adubar o solo para as outras plantas ao seu redor.
 
Como acontece com todos os tipos de experimentos, nem tudo tem dado tão certo, como as tentativas de Gautier de cultivar um tipo de abóbora tropical chamada de chayote.  A cada ano os seus ramos crescem com uma velocidade impressionante, mas no final, não produzem nenhum fruto, provocando grande frustração, pois a geada do Brooklyn chega algumas semanas mais cedo e não permite que a planta amadureça completamente.
 
As limitações de espaço são outro obstáculo sempre presente.  Mas também existem vantagens no ambiente urbano para se cultivar plantas, vantagens que não existem numa fazenda rural?  “É só mais... difícil”, admite Gautier, antes de acrescentar, “Sabe, você nunca tem falta de composto para adubar, pois as pessoas estão sempre jogando fora um monte de merda.”
 
 
Em outras palavras: a abordagem de Gautier simplesmente faz sentido: uma realidade que muitas vezes não fica evidente devido ao próprio fato de que a cultura “locavore” (pessoas que preferem comprar produtos fabricados localmente) é uma tendência em voga nos restaurantes descolados em bairros metropolitanos como o Brooklyn.  Até dá para desconfiar e descartar a agricultura urbana sustentável como outro modismo de marketing para a geração Twitter.
 
Palo Santo
© Palo Santo
 
 
Mas vale a pena prestar atenção em fazendeiros urbanos como Gautier, que são apaixonados pelos seus projetos sem serem dogmáticos ou exibidos, e você perceberá que a lógica do jardim no telhado se explica por si só.  Enquanto ele está totalmente comprometido com as possibilidades da agricultura urbana no seu restaurante, ele também diz que não tem planos de rotular o Palo Santo como um restaurante tipo natureba, direto da fazenda.  “Simplesmente fazemos o que fazemos e as pessoas ouvem falar ou não. Queremos que as pessoas venham pela boa comida e pelo bom restaurante que somos.”
 
Tente fazer isso em casa parte I
Tente fazer isso em casa parte II
 
© Palo Santo © Palo Santo © Palo Santo © Palo Santo
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Links Relacionados:
Palo Santo
Eagle Street Rooftop Farms
Brooklyn Brewery
 
 
 
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Comentáriosnts

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Sylvian Vanborst
postado por: Sylvian Vanborst | 17.11.2011 13:02
 
Nice one!
 

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